O marxismo de Gramsci e a religião

 

Augusto del Noce
Tradução: Gederson Falcometa
Centro Romano Incontri Sacerdotali,
documenti, Anno IV, n. 35,
Roma febbraio 1977

 

Gramsci: marxismo para o Ocidente

Qual lugar assegurar a Gramsci entre os teóricos ocidentais do comunismo? Um fato é incontestável: entre os teóricos ocidentais do comunismo, só Gramsci definiu uma linha política capaz de ter efeito nos países ocidentais. Uma vez que para o marxismo o filósofo, o historiador e o político são indistinguíveis, porque o critério de verdade é colocado para o marxismo na verificação histórica, parece legítimo concluir disto que se deve ver na posição gramsciana também o desenvolvimento mais rigoroso que o marxismo alcançou. Até agora, o marxismo não conseguiu vencer no Ocidente e com isso se universalizar. A possível vitória da ‘batalha do Ocidente’ torna o possível sinal da sua universalidade. Em todo o caso, é com o comunismo gramsciano que devemos fazer as contas.

Dito isto, devemos nos perguntar: existe para tal forma de marxismo uma possibilidade de conciliação, não só com o catolicismo, mas com qualquer posição de pensamento que admita uma realidade transcendente? Ou ao invés disso, o gramscismo contém a resposta decisiva, porém negativa, a qualquer possibilidade de diálogo?

Decisiva porque a negação da transcendência religiosa aparece em Gramsci não como uma superestrutura acompanhante, em razão dos erros históricos cometidos pelos crentes, ou de hábitos laicistas de pensamento, uma prática que em si seria neutral, de modo a ser então destinada, como superestrutura a cair, mas como uma condição, por assim dizer, transcendental, nas considerações dos aspectos teóricos e daqueles práticos do seu pensamento.

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“São Déscartes” Padroeiro das feministas e não somente delas

Sim Sim Não Não
[Tradução: Gederson Falcometa]

Do «homo faber» ao «homo fabricatus» e perenemente «fabricandus»

É a partir de Descartes que a inteligência atua a sua primeira e verdadeira prostituição a vontade de potência e se volve para o titanismo delirante de querer erigir a mente humana, não só a medida neoprotagorista de “todas as coisas”, mas a razão mesma do seu ser, do seu ser pelo seu decreto, a sua fábrica, a sua invenção. Se os antecedentes de um tal delírio estão já presentes no Humanismo com a bruniana mens insita omnibus ou com a verdadeira “indignidade” narcisista do mirandoliano “De hominibus dignitate”, para nos limitarmos a dar algum exemplo, é porém, sobretudo do cogito cartesiano que tem início a atividade dinamitada da inteligência humana nos confrontos daquele “secante obstáculo” que é a muda e nua objetividade das coisas. Do cogito em diante o domínio da mente se faz sempre mais totalitário e despótico, de maneira a ativar em seu interior uma espécie de inflexibilidade mecânica perceptiva que depois, por consubstancial dinamismo alucinatório, tem sempre mais a se especificar não só como recusa de qualquer evidência objetiva, mas sobretudo como ataque ab-rogativo nos confrontos da especificidade da pessoa e da sua dignidade e identidade real.

Não se está na presença, como gostaria de crer, de uma sorte de deslumbre devido a uma involuntária irrupção de estupidez dentro do recinto da inteligência, mas se está na presença de uma bem precisa escolha volitiva. Tanto é verdadeiro que o autêntico “canibalismo” que ela atua nos confrontos da identidade objetiva das coisas e do próprio homem não conhece, depois de Déscartes, pontos de impedimento ou momentos de resipiscência ou de inversão. Ao contrário, isso se torna sempre mais voraz na medida que se prolonga nas esterilidades abstrativas do Ich denke kantiano, da Tathandlug fichtiana, da Idee hegeliana, da Praxis marxista, do Ego epifenômico freudiano, até a infernal agitação do relativismo niilista em todas as suas formas possíveis.

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O latim, língua viva na Igreja

Padre António Freire, S.J.

Ao cair da tarde de um dos dias primaveris do ano de 374, sobre a amurada de um dos navios ancorados no porto de Aquileia e prestes a levantar ferro, rumo a Dirráquio, um jovem de 27 anos aguardava, impaciente, o momento em que os escravos encarregados das mercadorias dos passageiros, corressem para as suas bagagens, que ele vigiava com olhar solícito e acrisolado carinho. A viagem ia ser longa e a sua equipagem, composta exclusivamente de preciosos pergaminhos latinos, reunidos em Roma «à custa de mil suores e fadigas», corria perigo.

 Esse estudante, que doze anos antes, deixara a sua pequena pátria Estridónia, nas fronteiras da Dalmácia, para se ir matricular na Urbe entre os discípulos do célebre gramático romano, Élio Donato, e regressava agora com o espírito e as malas carregadas de erudição dos clássicos latinos, era Jerónimo – o homem que a Igreja havia de sublimar com a auréola de santo e a humanidade havia de saudar com o encomiástico nome de Cícero cristão.

 Rijas batalhas devia ele travar com encarniçados impugnadores da cultura clássica, alguns dos quais, como Rufino, não hesitariam em acusá-lo de pagão, perjuro e infiel ao juramento prestado ante o tribunal de Deus.

Imunizava-o, porém, contra os ataques dos adversários do classicismo, o exemplo decidido de S. Paulo, o qual escrevendo a Tito empregou um hemistíquio heróico do poeta Epiménides, e noutra carta um verso senário de Menandro; e até duma inscrição, encontrada por acaso, se servira para a defesa da fé.

 Por isso, o monge de Belém podia replicar aos que injustamente o arguíam: «Que admira que eu, encantado com a graça e beleza da sabedoria profana, tenha pretendido fazer dela uma israelita, de criada e escrava que era? Depois de a ter despojado de tudo o que tem de mortal, de tudo o que cheira a idolatria, a erros e a prazeres pecaminosos, não poderei eu, aliando-me com ela, torná-la fecunda para Deus?» . Continuar lendo →

A estranha teologia de Ratzinger

                                                                                                                               SIM SIM NÃO NÃO
ANO I – N°02

A especulação teológica de Ratzinger (como doutor privado) é muito ampla e multiforme. Vai desde o primado da consciência a Patrística, especialmente Agostinho-Boaventura, em função anti-escolástica, a colegialidade em função antimonárquica no governo da Igreja ao conceito kantiano de liberdade entendida; do diálogo inter-religioso a escatologia. Mas os dois pilares em que se fundam parecem ser a consideração da relação judaico-cristã e da teologia da história em São Boaventura, lida com forte ênfase Joaquimita (De Joaquim de Fiore).

1)Raízes judaicas do cristianismo segundo Ratzinger

Já vimos (Sim Sim Não Não 15 de março de 2009, pg.1-6) a relação de Ratzinger com a Comunidade Católica de Integração (CCI) que datam de 1972. O então Cardeal Ratzinger ,em 1997, na introdução ao livro aqui citado na nota nº1 escrevia; “O outro grande tema que adquire sempre mais relevo no âmbito teológico é a questão da relação entre a Igreja e Israel. A consciência de uma culpa, bastante removida, que pesa sobre a consciência cristã depois dos terríveis acontecimentos dos funestos doze anos de 1933 a 1945, é sem dúvida uma das razões primarias da urgência com a qual a questão é hoje sentida”. O interesse dele pelas relações entre Igreja e Israel remonta, como ele mesmo diz, ao 1947-1948, quando estudava em Mônaco sobre a direção do professor Gottieb Sönghen, de quem já tínhamos falado (Sim Sim Não Não cit.). A importância da “shoah” no desenvolvimento da sua teologia judaico-cristã é fundamental e remonta aos seus primeiros vinte anos. Onde erraríamos se quiséssemos ver na sua inclinação ao holocautismo judaico, uma novidade, devida – talvez – as pressões do lobby judaico-americanista ao explodir do “caso Williamson”.

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O Cardeal Billot sobre o liberalismo

                                                                             Padre Henri Le Floch

 

Resumo da doutrina do cardeal Billot sobre o erro do liberalismo e as suas diversas formas, segundo a exposição do tratado sobre a Igreja.

O liberalismo em matéria de fé e de religião é uma doutrina que pretende emancipar o homem, mais ou menos, de Deus, da sua lei, e da sua revelação, e de emancipar também a sociedade civil de qualquer dependência religiosa, da Igreja, tutora, intérprete e mestra da lei revelada por Deus.

A emancipação de Deus, fim ultimo do homem e da sociedade, é o quanto antes de tudo persegue. E, para alcançar-lhe, fixa como primeiro princípio a liberdade o bem fundamental do homem, bem sacro e intangível, que não é absolutamente permitido violar com qualquer tipo de coação; por isso, está liberdade sem limites deve ser a pedra imóvel sobre a qual se organizarão todos os elementos das relações entre os homens, a norma imutável segundo a qual serão julgadas todas as coisas do ponto de vista do direito; então, será equânime, justo e bom, o quanto em uma sociedade, tiver como base o princípio da liberdade individual inviolada; iníquo e perverso todo o restante. Este é o pensamento da revolução de 1789, revolução de que o mundo inteiro ainda colhe os frutos amargos. Este é o objeto completo da Declaração dos direitos do homem, da primeira à última linha. Este, para os ideólogos, o ponto de partida necessário para a reedificação completa da sociedade no campo político, no campo econômico, e sobretudo no campo moral e religioso.

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A teologia da “morte de Satanás”.

     SIM SIM NÃO NÃO

ANO I – N°02

O satanismo em sentido genérico e especifico

O “mundo”[1] inteiro, não enquanto criatura física de Deus, mas no sentido moral e pejorativo daqueles que vivem segundo o espírito mundano ou carnal oposto ao angélico e divino, é submetido ao diabo pelo dilema “ou Deus ou Eu”, “ou a verdade ou a mentira”. O demônio é por isso chamado também de “o príncipe deste mundo” (Jo XII, 31; XIV, 30), “o deus deste mundo” (2 Cor., IV, 4).

O reino de Satanás combate o reino de Deus (Mt., XII, 26), porque expulsa do coração do homem o bom grão da palavra de Deus para substituir-lhe com o joio ou falso grão do erro (Mc., IV, 15) e tenta “cegar a mente daqueles que ainda não creem, de modo que não possam ser iluminados pelo Evangelho da glória de Cristo” (2 Cor., IV, 41). Brevemente, Satanás combate no tempo contra o Reino de Deus, mas Jesus no fim vencerá e derrotará definitivamente Satanás e conquistará o mundo (Jo., XVI, 33): «Até o fim do mundo existirá oposição entre “os filhos de Deus” e os “filhos do diabo” (Jo., VIII, 44), os quais cumprem as “obras do diabo” (At., XIII, 10), que se resumem na impostura ou sedução (Jo.,VIII, 44; 1 Tim., IV, 2; Apoc., XII, 9) com que a verdade e a justiça são substituídas com o erro e o pecado (Rom., I, 25;Iac., V, 19)» [2].

Genericamente o satanismo é o estado de quem é submisso ou até mesmo consagrado a Satanás. O satanismo é inteiramente permeado e impregnado do espírito de Satanás, o adversário de Deus e do homem. Isto em sentido genérico. Em maneira especifica o termo satanismo assume três significados: 1º) o império de Satanás sobre o mundo; 2º) o culto prestado a Satanás; 3º) a imitação da sua revolta contra Deus. É necessário estudar os três significados para entender bem o satanismo.

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O verdadeiro fundamento

São Francisco de Sales

 

A posição suprema que teve São Pedro na Igreja militante, em razão da qual é chamado fundamento da Igreja, como chefe e governador, não vai além da autoridade do seu Mestre, antes, lhe é apenas uma participação; de modo que São Pedro não é fundamento da hierarquia fora de Nosso Senhor, mas em Nosso Senhor, tanto que nós o chamamos Santo Padre em Nosso Senhor, fora do qual não seria nada. […] Fundamento é então, Nosso Senhor, e assim também São Pedro, mas com uma notável diferença, que, a comparar com um, se pode também afirmar que o outro não o é. Verdadeiramente, Nosso Senhor é fundamento e fundador, fundamento sem outro fundamento, fundamento da Igreja Natural, Mosaica e Evangélica, fundamento perpétuo e imortal, fundamento da militante e daquela triunfante, fundamento de si mesmo, fundamento da nossa fé, esperança e caridade e do valor dos Sacramentos. São Pedro é fundamento, mas não fundador de toda a Igreja, fundamento, mas fundado sobre um outro fundamento que é Nosso Senhor, fundamento apenas da Igreja Evangélica, fundamento sujeito a sucessão, fundamento da Igreja militante, mas não daquela triunfante, fundamento por participação, fundamento ministerial, não absoluto; enfim, administrador e não senhor e por nada fundamento da nossa fé, esperança e caridade, nem do valor dos Sacramentos. (São Francisco de Sales, Controvérsias, pgs. 79, 279-280)

PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:

São Francisco de Sales. “O verdadeiro fundamento”, Controversie, pp. 79, 279-28, 2015, trad. br. por Sim Sim Não Não, abril 2015, http://simsimnaonao.altervista.org/blog/o-verdadeiro-fundamento/

 

O modernismo [1] a respeito da Igreja.

Padre Matteo Liberatore, S.J

I.

Logo que a Igreja de Cristo apareceu no mundo, o antigo Paganismo a combate até o fim, buscando sufoca-la no sangue. O novo Paganismo, que se chama Modernismo, e mais comumente Liberalismo ou Revolução, também ele combate a Igreja; porque, como instrumento de Satanás, é informado pelo mesmo espírito, o ódio a Cristo, e é movido pelo mesmo fim, aquele de impedir nos povos o benefício da redenção. Se não que a conseguir este mesmo fim, ele não pode usar os os mesmos meios. A razão é, porque onde para o antigo Paganismo tratava-se de impedir que a nova Potência se assenhorasse do mundo, para ele se trata de espoliar esta Potência da senhoria já conquistada. Então, esse é constrito a seguir contra a Igreja, mais que a violência, a astúcia, imitando o comportamento que Faraó prefixou contra o povo hebreu: Fortius nobis est. Venite sapienter opprimamus eum [2]. [Ndt.: «Ele disse ao seu povo: Vede: os israelitas tornaram-se numerosos e fortes demais para nós.Vamos! É preciso tomar precaução contra eles e impedir que se multipliquem, para não acontecer que, sobrevindo uma guerra, se unam com os nossos inimigos e combatam contra nós, e se retirem do país..» Cfr. Es. I, 9-10.]  Continuar lendo →

Verdade ou cortesia?

 
P. Luigi Taparelli D’Azeglio, S.J.

Revendo a nova história dos Italianos de Farini, temos a ocasião de observar como ele se ressente injustamente porque um legado pontifício apelou como sacrílego o demanio* Napoleônico, o qual usurpou da Igreja a posse de seus bens particulares, depois que o governo usurpador invadiu o domínio politico. Uma tal querela de Farini nada pode ter de estranho para qualquer um que conhece a seita dos moderados, a qual este escritor pertence: os quais todos cobiçosos de terem aquela que esses chamam paz, e que é realmente apatia de total ceticismo, se esforçam para que cada homem não pronunciem francamente um erro que desgoste aos sequazes da verdade ou uma verdade que desgoste aos sequazes do erro. «Em tal guisa, dizem eles, todos podem viver em paz, embora com doutrinas contrárias, e a terra pode se tornar um Paraíso, a sociedade uma Jerusalém.». Assim, os moderados, e, segundo heterodoxos, sapientemente, não tendo guia a juízos certos pelos seus intelectos, porque renegaram a autoridade da Igreja; nem esperança certa de uma felicidade além do mundo, que se deva conquistar aqui na terra a preço de batalhas e de sangue para a honra de Deus que falou, e que tem direito a impor fé e obediência.Mas outra coisa é esta ideia de paz ou de tranquilidade e ordem social, forjada nas mentes católicas nas ideias fundamentais do cristianismo. Eis como o católico a descreve: 

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Da nouvelle théologie a nova moral de situação

SIM SIM NÃO NÃO
Ano I – Nº01

O modernismo, para poder permanecer dentro da Igreja e muda-la subterraneamente, não quis se apresentar explicitamente como um sistema teológico bem definido [1], dado o seu caráter secreto (“foedus clandestinum/seita secreta”, S. Pio X, Sacrorum Antistitum, 1910) e o seu horror pelas definições, pela lógica e pela especulação racional, a filosofia e a teologia escolástica.

Padre Fabro [2] ensina que a periculosidade do modernismo consiste na sua difícil definição, que quer escravizar qualquer qualificação determinada e precisa, seja em filosofia ou em teologia, onde se mantém sobre o vago, sobre o “mítico” ou poético e chega a conclusões praticas totalmente disformes da ética objetiva, natural e divina.

O modernismo de fato não é e nem quer ser uma doutrina sistemática, mas é sim uma forma de sentimentalismo religioso[3], que difunde o erro do agnosticismo e do ceticismo relativista em toda parte, em maneira confusa, indefinida, para melhor evitar ser descoberto e condenado, e para enganar os simples fiéis, que estarreceriam dianto do erro explícito e claramente evidente. Apesar disto, o erro modernista foi bem individuado por São Pio X (Lamentabili e Pascendi, 1907; Sacrorum antistitum, 1910).

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