La Civiltà Cattolica: O modernismo crítico – 1908 (I)

 



La Civiltà Cattolica 
Roma 1908.
[Tradução: Gederson Falcometa]


A crítica está na boca de todos: é o mérito da idade moderna. E se fosse mérito sincero, haveria razão para aprecia-la: a crítica verdadeira é o exame glorioso da verdade, seja científica ou religiosa. Mas muitas vezes é mérito falso: e a crítica falsa, ou melhor, o vão nome de crítica, é então pálio de todos os erros, escudo e salvo-conduto de todas as insipiências das mentes transviadas.

Isto se verifica com a mais triste evidência no modernismo. Esse da crítica não só trama o orgulho, mas se arroga por pouco o seu monopólio; falsamente, como em todo o restante, como no vangloriar que se dá de filosófico, de teológico, de místico ou de apologético, segundo demonstramos nos precedentes artigos [1]. Para que da crítica em qualquer significado que se entenda, em qualquer parte do conhecível que se considere, o modernismo não tem outra coisa que ilusão e impostura.  E isto precisamente se quer aqui provar sucintamente, para dar, em poucos tratos ao menos, a síntese conjunta e a crítica do modernismo crítico.

I.

«A palavra crítica significa juízo, discernimento, exame, arte de julgar. No tempo presente se entende por «crítica» o exame racional das obras da mente humana. A crítica é uma arte mais que uma ciência. Essa supõe não somente um conhecimento suficiente do sujeito a que se aplica, mas a experiência das coisas que trata de julgar, e se assim pode se dizer, o manejo dos objetos que se trata de apreciar em si mesmos e de se comparar entre eles… Um crítico não tem necessidade de gênio; mas tem necessidade de ter olhos, juízo, tato, isto é, sagacidade, e de aperfeiçoar com o uso esses dons naturais.»

Tais palavras não são nossas, são de Alfredo Loisy; que assim falava até 1889 na sua lição de abertura do curso de Escritura Sacra na faculdade de teologia de Paris [2]. Mas ele falando assim pronunciava, sem querer, a sua condenação e de seus fautores, a condenação dos erros e dos métodos que depois teve o nome complexo e genérico de modernismo. E já quanto a crítica dos Evangelhos se demonstrou suficientemente nos dois precedentes artigos [3], como antes em uma especial tratativa sobre o cristianismo de A. Loisy [4]. Aqui consideramos a crítica modernista mais geralmente, seja do ponto prático, seja do lado mais propriamente especulativo ou doutrinal.

E começando da prática – a saber de fatos que caem sob a experiência de cada um e que nenhum dos modernistas podem negar – quem lhes considere não tão partidamente, mas no seu complexo, deverá persuadir-se como na nova escola, e por mérito dessa também em parte entre os jovens filo católicos, não se buscava mais o uso de crítica nenhuma das partes acima mencionadas, e menos que todas, colocar o raciocínio, o conhecimento do sujeito, a experiência e o longo uso da matéria, não só o fim intuído e a compreensão natural aperfeiçoada pelo estudo. Se buscava ao contrário liberdade, ousadia e novidade; onde era necessário a seguir-lhe a fácil e perniciosa, bem que de vez em quando genial, superficialidade, coberta em vão pela complexa e indeterminada extensão do objeto; já que, afirmava o Loisy, «o objeto da crítica é tão extenso quanto a atividade humana» [5].

Antes ele também devia entender da mente divina. Certo, as coisas divinas que igualmente às humanas se transferia esta nova crítica, tanto mais audaz quanto menos fundada: se estendia aos livros divinos, sem reserva, a divina revelação, ao dogma, a fé, não menos que a sistemas filosóficos e teológicos em que se mostre atividade de mente humana; se bem que mais particularmente se voltasse aos fatos que são de domínio próprio da história.

A extensão do objeto aparece em seguida imensa, infinita: dito a muitos as arestas como se novos horizontes se abrissem por toda parte ao pensamento humano; enquanto para muitos aquilo era uma vã miragem, que quanto mostrava de fazer ganhar em extensão e variedade de ciência, tanto fazia perder em compreensão e profundidade.

Do que não poderá haver dúvida, lhe somos certos, qualquer um com seriedade de entendimento e com qualquer preparação científica, tenha devido percorrer as revistas mais ou menos católicas, mais ou menos eclesiásticas, feitas, nestes últimos anos, na Itália e em outros lugares propagadores da nova cultura, mesmo quando traziam o título de críticas e históricas. Todo, ou quase todo, trabalho da sua crítica está no se assimilar, tumultuadamente e em desordem, e depois desse modo exposto em formas persuasivas e cobertas, as conclusões alheias mais audazes, particularmente aquelas dos protestantes liberais ou racionalistas [6], sem nenhuma verificação ou «exame racional», no qual também deveria estar a crítica, segundo o próprio Alfred Loisy.

Daqui vem sempre mais exposta a luz a dupla causa, assinalada pela encíclica, da voga que vem obtendo uma crítica de tal gênero entre católicos: «primeiro é a aliança íntima que há entre os historiadores e críticos desse gênero, não obstante qualquer diversidade de nacionalidade ou de crenças; o outro é a incrível audácia com que, qualquer parvoíce que algum deles diga, é pelos outros sublimada e decantada como progresso da ciência; se alguém o negar leva a pecha de ignorante; se, porém, o aceitar e defender, será coberto de louvores. Disto se segue que não poucos ficam enganados; entretanto, se melhor considerassem as coisas, ficariam, ao contrário, horrorizados».

Até aqui a encíclica, desnudando a contradição do modernismo crítico, o qual, enquanto se gaba a cada passo de objetividade e de serenidade, se mostra a ensinar sempre a paixão pela novidade e singularidade, desviado nos seus juízos daquela aliança, não expressa certamente, mas implícita, que é fruto de simpatia intelectual. Se faz verdadeiro em suma na nova crítica em gênero, aquilo que da crítica bíblica em espécie deplorava tão acuradamente S. Jerônimo, escrevendo a Paulino para adverti-lo de não se aventurar dessa maneira sozinho e rapidamente no grande pélago dos estudos escriturais: «Só a arte das Escrituras é aquela que todos indistintamente se arrogam… Desta… se vangloriam todos, estragam e a ensinam antes de tê-la aprendido. Outros com altivas sobrancelhas, moem grandiosas palavras, filosofam sobre Escrituras sacras entre as mulherzinhas. Outros ainda, oh vergonha!, das mulherzinhas aprendem aquilo que depois ensinam aos homens; e como se isto fosse pouco, com grande facilidade de palavras, antes com audácia, explicam aos outros aquilo que eles mesmos não entendem» [7]. E assim neste trecho continua o santo Doutor, com uma bem copiosa amplificação a qual gráfica evidência é tão viva e escaldante para os nossos dias, que renunciam a lhes mostrar as práticas e pessoais aplicações. Estes extinguiram muito em alguns escritores – que da autoridade de S. Jerônimo e de S. Agostinho amam fazer escudo – «a alegria e admiração pela sua perpétua modernidade» [8]; já que muitos vivazmente confirmaram aquelas outras palavras amargas da encíclica: «Infelizmente os nossos Doutores não ansiaram pelo estudo das Escrituras com aqueles meios, onde são formados os modernistas! »…

Mas já é claro per sè e patente que do falso conceito e do consequente abuso da crítica, isto é, dizer com a encíclica «deste prepotente impor-se dos desviados, deste incauto assentimento de ânimos levianos nasce em seguida quase um corrompimento da atmosfera que tudo penetra, e difunde para todos o contágio».

Continua…

Notas:

[1] Ver La Civ. Catt1907. 4. 257; 538. 1908. 1. 19. 146; 2. 170. 385. 547.

[2] Études Bibliques, Paris, Picard, 1903, p. 98 s.

[3] Ver cad. 1391, 1392: Alfredo Loisy e la critica degli Evangeli.

[4] Editada em parte, com nome do autor, o lamento do P. Eug. Polidori: La nuova apologia del cristianesimo, 2ª ediz. Roma, 1905.

[5] Études Bibliques, p. 99.

[6] Disto nós temos ouvido, ou não é muito, que faziam maravilhas também os professores leigos de universidades italianas, a propósito da extrema desenvoltura onde Padres católicos continuam essa obra de vulgarização, como, por exemplo, o Mari fez por respeito a obra de Harnack, como o Ermoni e antes dele o pseudônimo Gutope a respeito de outros estudos racionalistas nossos e estrangeiros.

[7] Hieron., Ep. LIII (al. CIII), ap. Migne, Patr. lat. XXII, 544: «Sola Scripturarum ars est quam sibi omnes vindicant… Hanc garrula anus, hanc delirus senex, hanc sophista verbosus, hanc universi praesumunt, lacerant, docent, antequam discant. Alii adducto supercilio, grandia verba trutinantes, inter mulierculas de sacris litteris philosophantur. Alii discunt, proh pudor, a feminis quod viros doceant,….. et ne parum hoc sit, quadam facilitate verborum, imo audacia edisserunt aliis quod ipsi non intelligunt

[8] Cf. Civ. Catt. 1906, vol. III, p. 271 (La nuova cultura del clero).

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