A relação entre o natural e o sobrenatural em Jacques Maritain

sim sim nao nao - As duas cidades
 

Extraído do livro:
Getsemani
Reflexões sobre o Movimento
Teológico Contemporâneo
Cardeal Giuseppe Siri
[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Um filósofo que no mesmo período, isto é, desde os anos 30, influenciou muito a formação das tendências contemporâneas, seja filosófica ou teologicamente, foi Jacques Maritain [1]. Em todo o seu pensamento, não só buscou assimilar a ordem natural na sobrenatural, mas ao contrário, lhes separou de tal modo que reconhece na criação e na história humana duas vocações distintas, ligadas certamente por um princípio de subordinação, mas essencialmente autônomas, com fins e meios próprios: a vocação e a missão terrestre, e a vocação sobrenatural.

Se alguém quisesse tomar consciência e colher imediatamente – se pode dizer – a característica do pensamento de Maritains acerca da autonomia das duas vocações distintas, bastaria que lesse a última frase do seu livro «Humanisme Intégral», publicado em 1936, e que constituí a referência fundamental de algumas tendências teológicas e também da ação temporal e política em muitos ambientes cristãos:

«Os mundos que surgiram no heroísmo, se põe na fadiga, afim de que venha por sua vez novos heroísmos e novos sofrimentos que farão surgir outros mundos. A história humana cresce assim, porque não se tem nisto um processo de repetição, mas de expansão e de progresso; cresce, como uma esfera de expansão, aproximando-se junto a sua dupla consumação: no absoluto aqui embaixo, onde o homem é deus sem Deus, e no absoluto do alto, onde é deus em Deus» [2].

Estes dois absolutos constituem uma espécie de íntimo segredo de todo o pensamento de Maritain e, se poderia dizer, também de toda a sua sensibilidade. Eles estão na base de todos os seus escritos, são o leitmov e o prisma fundamental através do qual se vê todas as coisas, das menores as maiores.

Jáem 1927, no seu livro «Primauté du Spirituel», afirma em muitos modos que:

«Cada um de nós pertence a duas cidades, uma cidade terrestre que tem como fim o bem comum temporal e a cidade universal da Igreja que tem como fim a vida eterna».

E, referindo-se a uma frase de Etienne de Tournai, específica:

«No mesmo círculo e na mesma multidão humana existem dois povos, e estes dois povos suscitam duas vias distintas, dois principados, uma duplíce ordem jurídica» [3]

No «Humanismo integral», Maritain exprime mais difusamente a sua visão da Criação e da realidade do mundo espiritual. Nesse a doutrina da distinção e do caráter autônomo da ordem temporal e da ordem espiritual foi exposta com uma vasta perspectiva de aplicação na ação em vista de «um ideal histórico concreto de uma nova cristandade», isto é «uma imagem em perspectiva significando o tipo particular, o tipo específico de uma civilização a qual tende uma dada idade histórica» [4]. E sempre através deste princípio de autônomia das ordens, inicial ou adquirida, entreve o caminho do mundo:

«Em virtude de um processo de diferenciação normal em si mesmo (bem que viciado pelas mais falsas ideologias) a ordem profana ou temporal, no curso dos tempos modernos, se constituiu nos confrontos da ordem espiritual ou sacra em uma relação de tal autonomia a excluir de fato a instrumentalidade. Em outros termos chegou a sua maior idade. E isto é mais uma vez um ganho histórico que uma nova cristandade deve conservar» [5]

No declínio da sua vida, com os seus dois livros: «Le Paysan de la Garonne» (1966) e «De l’Eglise du Christ» (1970), Maritain quis apresentar a grande crise doutrinal e moral do mundo e da Igreja. Quis também denunciar os «abusos» de certos conceitos, de certas fórmulas como por exemplo a expressão «personalista e comunitário» utilizada por Emmanuel Mounier, o fundador da revista «Esprit»:

«Graças sobretudo a Emmanuel Mounier – escreve – a expressão ‘personalista e comunitário’ se tornou um refrão para o pensamento católico. Eu mesmo disto não estou isento de alguma responsabilidade…. Penso que Mounier a tenha tomado de mim. Ela é justa, mas vendo o uso que se lhe faz agora, não lhe estou muito orgulhoso». [6]

Embora desejando fundamentalmente uma unidade mais profunda, Maritain permanece sempre, apesar de tudo, impregnado desta visão geral de distinção e autonomia. Basta para isto ver no prefácio do seu último livro «De l’Eglise du Christ», com qual preocupação e qual perseverança ele aplica em defender a autonomia da filosofia em relação a teologia, manifestando a mesma preocupação que tinha vinte anos antes quando escrevia:

«O filósofo terá conta das contribuições da ciência teológica, sem cessar por isso de ser filósofo (se verdadeiramente filósofo, então o será mais que nunca) requerendo, porém, as fontes de informações dignas de fé o suplemento da informação de que tem necessidade». [7]

Não é este o lugar para falar mais profundamente e mais detalhadamente da implicação de toda a obra de Maritain, e de toda a influência que teve na teologia e na ação dos cristãos deste século. Isto será feito em seguida, como para os outros autores de que apenas falamos. Porém, foi necessário recordar antes de tudo, a propósito da relação entre a ordem natural e a ordem sobrenatural, o princípio de distinção das ordens no significado particular que teve para Maritain; as repercussões de fato, foram grandes em todas as direções, e muitas vezes contrárias ao sentido do seu pensamento e de suas íntimas aspirações.

A título de exemplo e antes de falar em outro lugar da «teologia da libertação», se pode reportar o juízo de Gustavo Gutierrez [8] sobre Maritain, no seu livro «Teologia da libertação». Se compreende então a importância deste tema da distinção das ordens que pode parecer para alguns muito abstrato, anódino ou antiquado; e se compreendem também as preocupações e as tristezas que nobre pessoa de Jacques Maritain provou no último período da sua vida.

Eis por ora eis as palavras de Gustavo Gutierrez: «Os graves problemas que a nova situação histórica põe a Igreja a partir do século XVI e que se aguçaram com a revolução francesa, dando origem a uma outra perspectiva pastoral e a uma outra mentalidade teológica, que, graças a Maritain, receberam o nome de «nova cristandade». A encontramos exposta, com toda a clareza querida, na sua conhecida obra ‘Humanisme Intégral’. Ela buscará de fazer tesouro das lições vindas da ruptura entre a fé e a vida social, intimamente ligadas em uma época de cristandade, mas com categorias que não chegaram a liberarem-se completamente, e o notamos melhor agora, pela mentalidade tradicional… S. Tomás de Aquino, sustentando que a graça não suprime a natureza nem a substitui, mas a aperfeiçoa, abre a estrada para uma ação política mais autônoma e desinteressada. Sobre esta base, Maritain elabora uma filosofia política que busca também fazer próprios alguns elementos modernos. O pensamento de Maritain teve muita influência sobre certos setores cristãos da América Latina». [9]

Eis um discurso muito significativo. Gutierrez, com o seu juízo, nos permite distinguir claramente a natureza particular exercida pelo pensamento de Maritain. Ao mesmo tempo, Gutierrez crítica Maritain porque não se liberou suficientemente do corpo da Igreja. Ironiza também o seu apego a tradição eclesial. Tudo isto, porém, concorre para mostrar ainda mais a implicação doutrina do princípio fundamental de Maritain sobre a distinção das ordens e autonomia do temporal.

No fundo, a filosofia de Maritain é uma «filosofia-teologia» da história, que teve profundas repercussões na vida teórica e social da Igreja.

Notas:

[1] JACQUES MARITAIN (1882-1973), convertido ao catolicismo em 1906, professor de filosofia em Paris, em Toronto (Canada) e Princeton (Estados Unidos).

[2] J. MARITAIN, Umanesimo Integrale, Borla Ed., Bologna 1962, 5a ed. 1973, p. 303.

[3] J. MARITAIN, Primauté du Spirituel, Plan, Paris 1927, p. 17.

[4]Umanesimo Integrale, p. 167.

[5]Umanesimo Integrale, p. 208.

[6] J. MARITAIN, Le Paysan de la Garonne, Desclée de Brouwer ed., Paris 1965, pp. 81-82.

[7] J. MARITAIN, Neuf Leçons sur les notions premières de la philosophie morale, Téqui, Paris 1964, 1a ed. 1951, p. 103.

[8] GUSTAVO GUTIERREZ, sacerdote, nascido em 1928, professor de teologia na Universidade de Lima (Peru) e no Instituto de Pastoral de Medellin (Côlombia).

[9] G. GUTIERREZ, Teologia della liberazione, Queriniana, Brescia 1972, 2a ed. 1973, p. 61, e nota.

 

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