CRITÉRIOS PARA RECONHECER AS VERDADES DOGMÁTICAS

 

Sim Sim Nao Nao - Concílio Vaticano I

Padre Sisto Cartechini, S.J.
Roma, 15 de agosto de 1953
[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Exposto que coisa seja o dogma, é fácil conhecer os critérios para estabelecer quais sejam as singulares verdades dogmáticas.

 

1 – O magistério solene dos Concílios

Antes de expor este critério, que é a via mais comum para determinar a verdade de fé católica, é preciso fazer algumas observações importantes.

Para que as decisões de um Concílio tenham valor dogmático, o Concílio deve ser ecumênico e legítimo, apenas em tal caso ele goza do carisma da infalibilidade. De fato, Jesus Cristo prometeu a infalibilidade a Igreja universal e não as singulares igrejas particulares. Os Concílios particulares não são infalíveis: porém as suas decisões podem adquirir um valor universal e definitivo, se em seguida intervém a aprovação do romano pontífice. Assim, ocorreu com o Concílio Contantinopolitano Iº  (em 381: D. 85), para o Cartaginês contra os pelagianos (em 418: D. 101 ss.), o Arausicano contra os semipelagianos (em Orange 529: D. 174 ss.). A autoridade, portanto, destes Concílios, se bem que em origem particulares, de fato é como aquela dos Concílios ecumênicos.

Além disso: no desenvolvimento das discussões em um concílio podem acontecer muitos fatos de natureza puramente humana e ter lugar também as paixões, como se verificou em várias discussões no Concílio de Trento; mas as últimas conclusões, que dizem respeito a fé e aos costumes, são infalíveis.

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A relação entre o natural e o sobrenatural em Jacques Maritain

sim sim nao nao - As duas cidades
 

Extraído do livro:
Getsemani
Reflexões sobre o Movimento
Teológico Contemporâneo
Cardeal Giuseppe Siri
[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Um filósofo que no mesmo período, isto é, desde os anos 30, influenciou muito a formação das tendências contemporâneas, seja filosófica ou teologicamente, foi Jacques Maritain [1]. Em todo o seu pensamento, não só buscou assimilar a ordem natural na sobrenatural, mas ao contrário, lhes separou de tal modo que reconhece na criação e na história humana duas vocações distintas, ligadas certamente por um princípio de subordinação, mas essencialmente autônomas, com fins e meios próprios: a vocação e a missão terrestre, e a vocação sobrenatural.

Se alguém quisesse tomar consciência e colher imediatamente – se pode dizer – a característica do pensamento de Maritains acerca da autonomia das duas vocações distintas, bastaria que lesse a última frase do seu livro «Humanisme Intégral», publicado em 1936, e que constituí a referência fundamental de algumas tendências teológicas e também da ação temporal e política em muitos ambientes cristãos:

«Os mundos que surgiram no heroísmo, se põe na fadiga, afim de que venha por sua vez novos heroísmos e novos sofrimentos que farão surgir outros mundos. A história humana cresce assim, porque não se tem nisto um processo de repetição, mas de expansão e de progresso; cresce, como uma esfera de expansão, aproximando-se junto a sua dupla consumação: no absoluto aqui embaixo, onde o homem é deus sem Deus, e no absoluto do alto, onde é deus em Deus» [2]. Continuar lendo →

A autoridade e o autoritarismo

 

 

 

Sim Sim Nao Nao - Jesus e os fariseus

Jesus entre os escribas e os fariseus. Tela de Achille Mazzotti, 1844.

Gustave Thibon

29 de março de 1974

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Se dizemos de um homem que ele « tem autoridade », este juízo é um elogio. Mas se dizemos: ele « é autoritário » exprimimos uma crítica.

Onde está a diferença entre autoridade e autoritarismo?

 

A autoridade de um homem se mede pela sua capacidade de mandar, isto é, pela confiança que inspira ao seu próximo e que o inclina a obedecer sem discutir. No célebre drama « Rei Lear », Shakespeare nos mostra o velho rei deposto que vaga pela floresta. Um cavalheiro passando por lá, o encontra e lhe diz: «Não lhe conheço, mas sinto alguma coisa em você que me induz a lhe obedecer. – E que coisa seria essa? Pergunta o rei. – A autoridade».

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A terceira narina

 

Sim Sim Nao Nao - A terceira narina

Giovannino Guareschi
[Tradução: Gederson Falcometa]

Não: caro leitor, o Seu ressentimento é sem razão. O próprio fato de que o senhor, embora sendo comunista militante leia também os jornais que não são do Seu partido, o próprio fato de que o senhor embora considerando-se ofendido, me escreva assinando com nome, sobrenome e endereço, mas não somente isso, não me chame fascista, reacionário e traidor do povo, estão a demonstrar que o senhor não pode em nenhum modo ser compreendido na categoria dos homens com três narinas.

Esse negócio da terceira narina é – o reconhecemos – um achado gráfico notabilíssimo enquanto permite definir um tipo e uma mentalidade com o simples auxílio de um buraco, um pequeno buraco o qual, praticamente, se resolve em um circulozinho de rapidíssima atuação.

Polemicamente é um motivo válido e por isso eu lhe uso sem parcimônia de maneira que muitos já tem aceitado a terceira narina como um dado de fato, mas hoje precisamente por isto sinto o dever de fazer uma precisão.

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O Venerável Bartholomäus Holzhauser (1613-1658) ou a restauração da Realeza social de N.S. Jesus Cristo

 

Bartolomeu Holszhauser (esquerda), Johann Philipp von Schönborn (centro) e Rei Charles II da Inglaterra (direita). Pintura contemporânea.

 

Nicola Dino Cavadini

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

O Venerável Bartholomäus Holzhauser nasce de família pobre em Longnau, nas proximidades de Augusta, na Baviera, em 24 de agosto de 1613. Abraça a carreira eclesiástica durante o trágico período da guerra dos Trinta anos (1618-1648) decide fundar, para socorrer as gravíssimas condições espirituais do seu país, uma congregação de clérigos seculares formando vida comum, conhecidos como Bartolomitas. Inocêncio XI lhe aprovou a regra em 1680. O fundador morre em odor de santidade paróco de Bingen, na diocese de Mongúcia, em 20 de maio de 1658, onde repousa na Igreja da Santa Cruz.

 

Hozhauser todavia é ainda mais notável por uma “obra publicada pela primeira vez em Bamberga em 1784: Interpretatio in Apocalypsin, por alguns considerada o melhor produto daquela corrente exegética que vê no Apocalipse de S. João a narração simbólica da história da Igreja”. Holzhauser, singularmente dotado do dom da profecia, deu mão ao comentário depois de 1649 enquanto se encontrava no Tirol, “em continua oração por dias inteiros, privado de comida e bebida” e “separado de todo consórcio humano”.

O autor se insere então no interior de uma linha hermenêutica assaz antiga, com o claro entendimento de indicar aos contemporâneos como a restauração católica, falida depois da má conclusão da guerra dos Trinta anos, foi adiada no tempo. Deus, que precisamente falou a respeito dos acontecimentos de sua Esposa mística, a Igreja, no Apocalipse, determinou realmente uma época da história em que a Monarquia de Cristo dominará sobre toda a terra, sobre todos os seus inimigos internos e externos.

A paz de Westfalia de 1648, de fato, julgada por Holzhauser “danosíssima contra a Cristandade e a Igreja Católica”, não só reconfirmou e legitimou a divisão da Alemanha entre regiões luteranas e católicas, mas piorando a condição precedente, reconhece além disso, oficialmente também o calvinismo, que do conflito foi a causa desencadeadora. A heresia em suma conseguiu sair vitoriosa e se tinha estabelecido firmemente no coração do império, apesar dos esforços dos Imperadores Habsburgos, sobretudo de Ferdinando II (1619-1637) muitas vezes elogiado pelo autor, de recuperar para a Igreja a inteira Alemanha.

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[TOLKIENIANA] Boromir, o Pecador resgatado

 

 

Di Isacco Tacconi

Radio Spada

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Gostaria de dedicar esta nova tratativa sobre personagens tolkienianos a uma figura a mim particularmente cara: Boromir de Gondor.

A “simpatia”, no sentido etimológico do termo de “com paixão” (do grego «syn – patìa»= sentir comum), que este personagem sempre me suscitou deriva da sua radical e dramática humanidade. Entre todos os personagens da Companhia que se oferecem para acompanhar Frodo nas suas missões “redentoras”, Boromir é, a meu ver, o mais “humano”. Não por acaso é o único verdadeiro representante do mundo dos homens. Não o mesmo para Aragorn que está, em certo sentido, acima do homem, é mais que um homem. Mas deixemos o discurso sobre o Herdeiro de Isildur para uma próxima tratação, melhor nos dedicarmos ao “homem” Boromir.

Filho do regente de Gondor, Boromir tem um destino assinalado pela frustração e pela desilusão: ele realmente não é herdeiro do trono de Gondor porque o pai não é o Rei. Aquilo a que Boromir ao máximo pode ambicionar é também tornar-se regente de Gondor, mas jamais o Rei e sabe bem que esta honra não cabe a ele. Boromir se encontra a dever combater, sofrer e defender um reino e um trono que não lhe pertencem, é o simples filho do protetor do trono. Portanto, triste o seu fato marcado pela fadiga e pela dor ou ao mesmo tempo belíssimo e honroso o papel de combatente e de guia que deve desenvolver.

Ele é o “servo bom e fiel” da parábola evangélica que deve vigiar e proteger a casa dos inimigos, continuar a servir o patrão mesmo se o patrão da casa está ausente atendendo-o com paciência e perseverança. Boromir é um outro maravilhoso paradigma tolkeniano do “homem” e melhor ainda do cristão, que não tem a sua glória neste mundo, ou seja, não pode sentar-se já aqui sobre o Trono real mas o deve servir e defender fielmente em espera do “Retorno do Grande Rei”, apenas então, se houver perseverado até o fim, poderá ouvir-se dizer do Rei: «euge serve bone et fidelis quia super pauca fuisti fidelis supra multa te constituam intra in gaudium domini tui» (Mt 25,23). Continuar lendo →

O marxismo de Gramsci e a religião

 

Augusto del Noce
Tradução: Gederson Falcometa
Centro Romano Incontri Sacerdotali,
documenti, Anno IV, n. 35,
Roma febbraio 1977

 

Gramsci: marxismo para o Ocidente

Qual lugar assegurar a Gramsci entre os teóricos ocidentais do comunismo? Um fato é incontestável: entre os teóricos ocidentais do comunismo, só Gramsci definiu uma linha política capaz de ter efeito nos países ocidentais. Uma vez que para o marxismo o filósofo, o historiador e o político são indistinguíveis, porque o critério de verdade é colocado para o marxismo na verificação histórica, parece legítimo concluir disto que se deve ver na posição gramsciana também o desenvolvimento mais rigoroso que o marxismo alcançou. Até agora, o marxismo não conseguiu vencer no Ocidente e com isso se universalizar. A possível vitória da ‘batalha do Ocidente’ torna o possível sinal da sua universalidade. Em todo o caso, é com o comunismo gramsciano que devemos fazer as contas.

Dito isto, devemos nos perguntar: existe para tal forma de marxismo uma possibilidade de conciliação, não só com o catolicismo, mas com qualquer posição de pensamento que admita uma realidade transcendente? Ou ao invés disso, o gramscismo contém a resposta decisiva, porém negativa, a qualquer possibilidade de diálogo?

Decisiva porque a negação da transcendência religiosa aparece em Gramsci não como uma superestrutura acompanhante, em razão dos erros históricos cometidos pelos crentes, ou de hábitos laicistas de pensamento, uma prática que em si seria neutral, de modo a ser então destinada, como superestrutura a cair, mas como uma condição, por assim dizer, transcendental, nas considerações dos aspectos teóricos e daqueles práticos do seu pensamento.

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“São Déscartes” Padroeiro das feministas e não somente delas

Sim Sim Não Não
[Tradução: Gederson Falcometa]

Do «homo faber» ao «homo fabricatus» e perenemente «fabricandus»

É a partir de Descartes que a inteligência atua a sua primeira e verdadeira prostituição a vontade de potência e se volve para o titanismo delirante de querer erigir a mente humana, não só a medida neoprotagorista de “todas as coisas”, mas a razão mesma do seu ser, do seu ser pelo seu decreto, a sua fábrica, a sua invenção. Se os antecedentes de um tal delírio estão já presentes no Humanismo com a bruniana mens insita omnibus ou com a verdadeira “indignidade” narcisista do mirandoliano “De hominibus dignitate”, para nos limitarmos a dar algum exemplo, é porém, sobretudo do cogito cartesiano que tem início a atividade dinamitada da inteligência humana nos confrontos daquele “secante obstáculo” que é a muda e nua objetividade das coisas. Do cogito em diante o domínio da mente se faz sempre mais totalitário e despótico, de maneira a ativar em seu interior uma espécie de inflexibilidade mecânica perceptiva que depois, por consubstancial dinamismo alucinatório, tem sempre mais a se especificar não só como recusa de qualquer evidência objetiva, mas sobretudo como ataque ab-rogativo nos confrontos da especificidade da pessoa e da sua dignidade e identidade real.

Não se está na presença, como gostaria de crer, de uma sorte de deslumbre devido a uma involuntária irrupção de estupidez dentro do recinto da inteligência, mas se está na presença de uma bem precisa escolha volitiva. Tanto é verdadeiro que o autêntico “canibalismo” que ela atua nos confrontos da identidade objetiva das coisas e do próprio homem não conhece, depois de Déscartes, pontos de impedimento ou momentos de resipiscência ou de inversão. Ao contrário, isso se torna sempre mais voraz na medida que se prolonga nas esterilidades abstrativas do Ich denke kantiano, da Tathandlug fichtiana, da Idee hegeliana, da Praxis marxista, do Ego epifenômico freudiano, até a infernal agitação do relativismo niilista em todas as suas formas possíveis.

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O latim, língua viva na Igreja

Padre António Freire, S.J.

Ao cair da tarde de um dos dias primaveris do ano de 374, sobre a amurada de um dos navios ancorados no porto de Aquileia e prestes a levantar ferro, rumo a Dirráquio, um jovem de 27 anos aguardava, impaciente, o momento em que os escravos encarregados das mercadorias dos passageiros, corressem para as suas bagagens, que ele vigiava com olhar solícito e acrisolado carinho. A viagem ia ser longa e a sua equipagem, composta exclusivamente de preciosos pergaminhos latinos, reunidos em Roma «à custa de mil suores e fadigas», corria perigo.

 Esse estudante, que doze anos antes, deixara a sua pequena pátria Estridónia, nas fronteiras da Dalmácia, para se ir matricular na Urbe entre os discípulos do célebre gramático romano, Élio Donato, e regressava agora com o espírito e as malas carregadas de erudição dos clássicos latinos, era Jerónimo – o homem que a Igreja havia de sublimar com a auréola de santo e a humanidade havia de saudar com o encomiástico nome de Cícero cristão.

 Rijas batalhas devia ele travar com encarniçados impugnadores da cultura clássica, alguns dos quais, como Rufino, não hesitariam em acusá-lo de pagão, perjuro e infiel ao juramento prestado ante o tribunal de Deus.

Imunizava-o, porém, contra os ataques dos adversários do classicismo, o exemplo decidido de S. Paulo, o qual escrevendo a Tito empregou um hemistíquio heróico do poeta Epiménides, e noutra carta um verso senário de Menandro; e até duma inscrição, encontrada por acaso, se servira para a defesa da fé.

 Por isso, o monge de Belém podia replicar aos que injustamente o arguíam: «Que admira que eu, encantado com a graça e beleza da sabedoria profana, tenha pretendido fazer dela uma israelita, de criada e escrava que era? Depois de a ter despojado de tudo o que tem de mortal, de tudo o que cheira a idolatria, a erros e a prazeres pecaminosos, não poderei eu, aliando-me com ela, torná-la fecunda para Deus?» . Continuar lendo →

A estranha teologia de Ratzinger

                                                                                                                               SIM SIM NÃO NÃO
ANO I – N°02

A especulação teológica de Ratzinger (como doutor privado) é muito ampla e multiforme. Vai desde o primado da consciência a Patrística, especialmente Agostinho-Boaventura, em função anti-escolástica, a colegialidade em função antimonárquica no governo da Igreja ao conceito kantiano de liberdade entendida; do diálogo inter-religioso a escatologia. Mas os dois pilares em que se fundam parecem ser a consideração da relação judaico-cristã e da teologia da história em São Boaventura, lida com forte ênfase Joaquimita (De Joaquim de Fiore).

1)Raízes judaicas do cristianismo segundo Ratzinger

Já vimos (Sim Sim Não Não 15 de março de 2009, pg.1-6) a relação de Ratzinger com a Comunidade Católica de Integração (CCI) que datam de 1972. O então Cardeal Ratzinger ,em 1997, na introdução ao livro aqui citado na nota nº1 escrevia; “O outro grande tema que adquire sempre mais relevo no âmbito teológico é a questão da relação entre a Igreja e Israel. A consciência de uma culpa, bastante removida, que pesa sobre a consciência cristã depois dos terríveis acontecimentos dos funestos doze anos de 1933 a 1945, é sem dúvida uma das razões primarias da urgência com a qual a questão é hoje sentida”. O interesse dele pelas relações entre Igreja e Israel remonta, como ele mesmo diz, ao 1947-1948, quando estudava em Mônaco sobre a direção do professor Gottieb Sönghen, de quem já tínhamos falado (Sim Sim Não Não cit.). A importância da “shoah” no desenvolvimento da sua teologia judaico-cristã é fundamental e remonta aos seus primeiros vinte anos. Onde erraríamos se quiséssemos ver na sua inclinação ao holocautismo judaico, uma novidade, devida – talvez – as pressões do lobby judaico-americanista ao explodir do “caso Williamson”.

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