O latim, língua viva na Igreja

Padre António Freire, S.J.

Ao cair da tarde de um dos dias primaveris do ano de 374, sobre a amurada de um dos navios ancorados no porto de Aquileia e prestes a levantar ferro, rumo a Dirráquio, um jovem de 27 anos aguardava, impaciente, o momento em que os escravos encarregados das mercadorias dos passageiros, corressem para as suas bagagens, que ele vigiava com olhar solícito e acrisolado carinho. A viagem ia ser longa e a sua equipagem, composta exclusivamente de preciosos pergaminhos latinos, reunidos em Roma «à custa de mil suores e fadigas», corria perigo.

 Esse estudante, que doze anos antes, deixara a sua pequena pátria Estridónia, nas fronteiras da Dalmácia, para se ir matricular na Urbe entre os discípulos do célebre gramático romano, Élio Donato, e regressava agora com o espírito e as malas carregadas de erudição dos clássicos latinos, era Jerónimo – o homem que a Igreja havia de sublimar com a auréola de santo e a humanidade havia de saudar com o encomiástico nome de Cícero cristão.

 Rijas batalhas devia ele travar com encarniçados impugnadores da cultura clássica, alguns dos quais, como Rufino, não hesitariam em acusá-lo de pagão, perjuro e infiel ao juramento prestado ante o tribunal de Deus.

Imunizava-o, porém, contra os ataques dos adversários do classicismo, o exemplo decidido de S. Paulo, o qual escrevendo a Tito empregou um hemistíquio heróico do poeta Epiménides, e noutra carta um verso senário de Menandro; e até duma inscrição, encontrada por acaso, se servira para a defesa da fé.

 Por isso, o monge de Belém podia replicar aos que injustamente o arguíam: «Que admira que eu, encantado com a graça e beleza da sabedoria profana, tenha pretendido fazer dela uma israelita, de criada e escrava que era? Depois de a ter despojado de tudo o que tem de mortal, de tudo o que cheira a idolatria, a erros e a prazeres pecaminosos, não poderei eu, aliando-me com ela, torná-la fecunda para Deus?» .

 Pensava acertadamente este humanista de gema, e a própria Igreja católica era a que lhe insuflava o mais estimulante incentivo, fazendo uso assíduo da língua e cultura do Lácio nas suas escolas e nos seus escritos.

 A missão universal atribuída por Plínio à língua latina, não acabou com a queda do império romano; a Igreja católica, fazendo seu o idioma do Lácio, como que lhe comunicou a sua vitalidade perene, unitiva e pacificadora, servindo-se dele para evangelizar os povos e para criar a nova civilização cristã.

 Os Apologetas e Padres Latinos, ao exararem suas obras na majestosa língua de Roma, transfundiram-Ihe nova seiva, criaram novos vocábulos, remoçaram-na, avigoraram-na e cerziram-na em moldes de mais ampla e moderna tessitura.

Minúcio Félix e S. Jerónimo, Tertuliano e S. Agostinho, S. Cipriano e S. Leão Magno, pela elegância do seu estilo rico e sonoro, pelo vigoroso poder de expressão verbal inconfundível, e pela beleza das páginas que criaram, podem não só competir com os escritores mais celebrados da época áurea de Roma, mas superam-nos, até, na sublime elevação do seu pensamento medularmente cristão.

 E foram estes homens da Igreja, foram os humanistas, os filósofos e os teólogos cristãos, os que mais trabalharam, consciente ou inconscientemente, pela vitalidade imperecível do latim. Como subtilmente notou A. Bacci, «o latim não morreu, nem podia morrer, porque foi chamado a participar da mesma indefectível vida da Igreja».

 Ninguém, mais do que os Pontífices romanos, tem enaltecido a importância do latim, e inculcado tão insistentemente o seu estudo teórico e prático.

 Para só mencionar testemunhos mais modernos, citemos primeiramente as palavras exortatórias de Pio IX, na Carta Encíclica, Singulari quidem, aos Bispos do Império Austríaco, a 17 de Março de 1856: «Procurai com todas as veras, que principalmente nos vossos seminários, os jovens seminaristas se formem cuidadosamente no conhecimento da língua latina e no estudo das humanidades … ».

 Leão XIII, na Carta, Plane quidem intelligis, ao Cardo Vigário de Roma, de 20 de Maio de 1885, exprime o veemente desejo de que se proporcione ao clero uma esmerada cultura literária e se dê ‘a primazia ao latim, como companheiro e auxiliar, que é, da Religião católica em todo o Ocidente: est latinus sermo religionis catholicae Occidente to to comes et administer».

 E em Carta Encíclica dirigida aos Bispos e ao Clero da França, em Setembro de 1899, o imortal Pontífice da Rerum Novarum, sentindo que os Seminários franceses, por cedência aos programas do Estado tendentes a reduzir o estudo do latim, corriam o risco de o mutilar também nas suas aulas, previne os Prelados do perigo e recorda-lhes a urgente necessidade de manterem «os estudos dos aspirantes ao sacerdócio fiéis aos métodos tradicionais dos séculos passados. Foram eles que formaram os homens eminentes de que a Igreja de França justamente se gloria». E, concretizando mais, adverte: «Se de há vários anos para cá, os métodos pedagógicos em vigor nas escolas do Estado reduzem progressivamente o estudo da língua latina e suprimem os exercícios de prosa e verso, a que os nossos antepassados davam, e com razão, tanta importância, os Seminários menores devem estar alerta contra tais inovações inspiradas em preocupações utilitárias, e que redundam em detrimento da sólida formação do espírito».

 Por sua vez, S. Pio X, na Carta Vehementer sane, enviada aos Bispos de todo o orbe católico, a 1 de Junho de 1908, depois de chamar seriamente a atenção para o facto de «ser o latim a língua própria da Igreja (linguam latinam iure meritoque dici et esse linguam Ecclesiae propriam), bem como «a língua da Filosofia e da Teologia (sed praeterea lingua latina cum Philosophiae, tum sacrarum disciplinarum lingua facile dicenda est), ordena que os Professores expliquem essas matérias em latim».

 Com não menos vigor se exprimiu Bento XV, em Carta aos Bispos alemães, datada de 9 de Outubro de 1921: «Os alunos aprendam com empenho a língua latina e vernácula… Procurem sobretudo, com diligência, os Bispos que o estudo do latim recupere com brilho o seu antigo esplendor: Sed curent praesertim diligenterque provideant Episcopi ut studium latini sermonis… in spem veteris gloriae revirescat».

 Pio XI consagrou à causa do latim na Igreja uma atenção muito particular. Em 1 de Agosto de 1922, frisando que o conhecimento do latim entre os clérigos importava não só ao estudo das humanidades, mas à própria Religião, declarava: «É evidente que o clero, primeiro que ninguém, deve mostrar grande afeição à língua latina: liquet clerum, ante alios, latinae linguae perstudiosum esse oportere». E dá, entre outras, esta razão subtil: «Se em qualquer leigo de mediana cultura, a ignorância da língua latina, que podemos chamar verdadeiramente católica (quam dicere catholicam vere possumus), denota menos amor à Igreja, quanto mais convém que todos os clérigos conheçam a fundo essa mesma língua!».

 Como medida prática a atestar o interesse qqe votava a tão nobre causa, ordenou Pio XI, pelo Motu Proprio. Litterarum Latinarum, de 20 de Outubro de 1924:

 1.º – Que na Universidade Gregoriana, confiada pela Santa Sé à Companhia de Jesus, se erigisse uma cátedra de latinidade para ensino da língua e literatura latinas.

 2.º – Que os Mestres que houvessem de reger essa cátedra, procurassem por meio de frequentes exercícios orais e escritos, levar os alunos a um aperfeiçoamento mais primoroso do estilo latino.

 3.º – Que o curso compreendesse dois anos; e que ao cabo desse biênio, se entregasse um diploma aos alunos devidamente aprovados no exame final. Os alunos providos de tal diploma seriam preferidos nos concursos para a obtenção de benefícios junto da Santa Sé e das Cúrias diocesanas, e os mais distintos seriam premiados.

 4.º – As aulas seriam franqueadas a todos, mesmo aos leigos. Particularmente desejava o Sumo Pontífice que fossem frequentadas por alunos dos Seminários e das Comunidades religiosas, residentes na Itália ou fora dela, mormente por aqueles que os Prelados julgassem mais idóneos para o estudo do latim.

 Finalmente, Pio XII proclama o uso do latim como «evidente e belo sinal de unidade e remédio eficaz contra qualquer possível corrupção da genuína doutrina». Considera a língua latina como «um tesoiro de incomparável beleza: thesaurus est incomparandae praestantiae». Mas não pode abafar o queixume de verificar que «a língua latina: glória dos sacerdotes, tem cada vez menos e mais frouxos cultores: Proh dolor, latina lingua, gloria sacerdotum, nunc languidiores usque et pauciores habet cultores». Não quer que haja sacerdote algum que não a entenda e fale com facilidade e fluência: «Nullus sit sacerdos, qui eam nesciat facile et expedite legere et loqui». Se algum sacerdote houver que a ignore, deve-se crer que sofre de lamentável deformidade mental: quare sacrorum administer qui eam ignorat, reputandus est lamentabili mentis laborare squalore.

 Nada mais justificado do que estes tão reiterados apelos dos Sumos Pontífices para o cultivo do latim entre os eclesiásticos. O latim é a língua de comunicação universal entre os sacerdotes das mais longínquas e diversas regiões; é a língua em que se encontram traduzidos os livros do Antigo e Novo Testamento; é a língua em que são redigidos a maior parte dos documentos Pontifícios; é a língua em que foram escritos alguns dos tratados mais belos e autorizados de ascese e exegese Patrística, de Teologia, de Filosofia e de Pastoral; é finalmente a língua em que os sacerdotes da Igreja Latina recitam as preces canónicas do Breviário, da Missa e das cerimónias litúrgicas.

 Tem-se esboçado aqui e além certa tendência a acabar com o latim na missa e no ritual. Embora sob o aspecto pastoral pudesse ter alguma vantagem o emprego da língua vernácula, a isso fàcilmente se ocorre com a tradução do missal para uso dos fiéis e com a versão de algumas fórmulas na administração de vários sacramentos, autorizada já pela Santa Sé para diversas nações.

 Mas ao lado do aspecto pastoral, há o aspecto católico. O Cardeal Gibbons tentou um dia dar a razão do emprego do latim na missa e nas funções litúrgicas da Igreja. E era precisamente este aspecto católico que o eminente Purpurado pretendia focar: «Quando se implantou pela primeira vez o Cristianismo, dirigia os destinos do mundo o Império romano (…). O latim era a língua do império (…). A Igreja adoptou naturalmente na sua liturgia do culto público, a língua que então preponderava entre os povos. Os Padres da primitiva Igreja escreveram geralmente na língua latina, que assim se tornou depósito dos tesoiros da literatura sagrada na Igreja.

 No século v sobreveio a ruptura do Império Romano. Novos reinos começaram a formar-se na Europa, sobre as ruínas do velho Império. O latim deixou gradualmente de ser língua viva dos povos, e novos idiomas começaram a brotar da língua-mãe. A Igreja, porém, conservou na sua liturgia e na administração dos sacramentos a língua latina, por muitas e prudentes razões:

 Primeiramente, a unidade da fé. A Igreja Católica mantém sempre uma e a mesma fé, a mesma forma de culto público, o mesmo governo espiritual. Assim como a sua doutrina e liturgia se conservam inalteráveis, assim ela deseja que a linguagem da sua liturgia seja fixa e uniforme. A Fé Pode chamar-se a jóia, e a linguagem o cofre que a contém. A Igreja é tão cuidadosa em preservar intacta a jóia, que não se atreve a modificar o cofre em que ela se encerra. As línguas vivas, ao contrário duma língua morta, mudam constantemente o vocabulário e seu significado (…). A língua latina, pelo contrário, sendo uma língua morta, não está sujeita a essas vicissitudes».

 O ilustre Antístite Baltimorense apela depois para a catolicidade da Igreja e salienta, que em contraste com o que se passa nas seitas protestantes, como nos Concílios ecuménicos, é a língua latina que permite o mútuo entendimento e fácil expressão entre os membros das mais remotas e variadas nacionalidades. Por fim, entrando mais em concreto na questão proposta sobre o uso do latim na missa, o Cardeal Gibbons formula a objecção, à qual responde imediatamente: «Mas o facto de o sacerdote dizer a missa numa língua desconhecida, não fará com que o povo ignore o que ele está dizendo e perca assim o seu tempo na Igreja.

 Sentimos vontade de sorrir perante tais objecções que se repetem levianamente de ano para ano. Tais asserções procedem de uma ignorância total do que é a missa.

 Muitos protestantes imaginam que a essência do culto público consiste num sermão. Daí que para eles, o principal dever dos fiéis é escutar o discurso que lhes é dirigido do púlpito. Pelo contrário, a oração, segundo a doutrina católica, é o dever mais essencial dos fiéis, se bem que estes são instruídos com regularidade por meio de sermões. Ora, o que vem a ser a missa? Não é um sermão, mas uma oração sacrifical que o sacerdote oferece a Deus por si mesmo e pelo povo. Quando o sacerdote celebra a Missa, não fala com o povo, mas com Deus, para quem todas as línguas são inteligíveis.

 Os fiéis não podem, certamente, ouvir o celebrante (…), visto que boa parte do que ele diz é pronunciado em voz baixa. E era este o sistema cultual prescrito por Deus na Antiga Lei, como lemos no Antigo Testamento e no primeiro capítulo de S. Lucas. O sacerdote oferecia o sacrifício e orava pelo povo no santuário, enquanto os fiéis oravam a distância, no átrio. Em todas as igrejas cismáticas do Oriente, o sacerdote nas funções públicas não reza em vernáculo, mas numa língua morta. O mesmo se pratica hoje em dia nas sinagogas judaicas: o Rabi reza em hebraico, que é uma língua com a qual boa parte dos fiéis não estão familiarizados.

 Mas será verdade que o povo não entende o que o sacerdote diz na missa? De modo nenhum. Por meio de um missal em vernáculo pode seguir o celebrante desde o princípio até ao fim das funções religiosas».

 A uma exposição tão clara e tão brilhante, como esta, nada mais há a acrescentar; quando muito, convirá esclarecer que o latim não é língua morta, mas viva. O latim da missa ou do Ritual tem-se conservado mais ou menos inalterável; mas a língua latina, como tal, continua em evolução e progresso, sobretudo na técnica lexicográfica. Não há, a bem dizer, tema moderno e científico, sobre o qual a Igreja não se tenha pronunciado em latim. Recorde-se, por exemplo, a Encíclica de Pio XI, «Vigilanti Cura», sobre o cinema, bem como as normas directivas de Pio XII sobre a radiestesia.

 Em Junho de 1939, no vasto pátio de S. Dâmaso, no Vaticano, o Papa Pio XII falou em latim a vários milhares de alunos dos Institutos eclesiásticos de Roma. O latim é a língua usada por mestres e alunos nas disciplinas de Filosofia e Teologia da maior parte dos Seminários e Universidades eclesiásticas de todo o mundo.

 Infelizmente, porém, o declínio do estudo do latim, tem atingido também, num e noutro sector, alguns estabelecimentos de ensino eclesiástico. Nem sempre se cumprem à risca as prescrições da Santa Sé quanto ao uso da língua latina nas aulas de Filosofia e de Teologia, e alguns Professores tendem a ampliar abusivamente a concessão feita por Bento XV nas «Normas», enviadas a todos os Ordinários da Itália, nas quais se permitia ao professor acrescentar alguma ulterior explicação em vernáculo.

 Com razão, o Geral da Companhia de Jesus, M. R. P. Wlodimiro Ledóchowski, a quem a S. Congregação dos Seminários, preocupada com a sorte do latim e do ensino superior nos Institutos eclesiásticos, solicitou oportunamente o parecer, alegava entre outras razões em defesa do latim nas escolas da Igreja, a da disciplina eclesiástica. A vista de tantos e tão claros documentos Pontifícios, a inculcar o estudo do latim, sobretudo desde o século XVI, quando os inimigos da Igreja, e principalmente a franco-maçonaria, começaram a vibrar-lhe golpes demolidores (bem sabiam eles que alvejar o latim, era até certo ponto alvejar também a Igreja), «é muito triste – comenta o M. R. P. Ledóchowski – que nos seminários, onde se forma o clero e se deve dar exemplo de pressurosa obediência à Santa Sé, documentos Pontifícios tão magníficos e tão solenes, e prescrições tão claras, sejam em não poucos países ou simplesmente ignorados ou (o que é pior) abertamente transgredidos».

 Outra grave razão em prol do latim, é a que o mesmo Prepósito Geral deduz da necessidade de preservar, a todo o transe, a «pureza da fé». As línguas modernas estão em constante evolução; em muitas línguas vivas vão-se introduzido muitas alterações sintácticas, morfológicas e semânticas. Pelo contrário, na língua latina os termos criados à custa de discussões profundas através dos séculos, para exprimir os mais altos e difíceis conceitos filosóficos e teológicos, tornaram-se, por assim dizer, termos técnicos, de significação bem definida e fixa. Dada, pois, a dificuldade e o perigo de reproduzir em vernáculo ideias tão transcendentes, expressas numa linguagem concisa e estável, bem se deixa ver o risco a que se expõe a genuína doutrina teológica e filosófica, quando se abandona o latim e se preferem as línguas nacionais.

 O perigo é tanto mais sério, quanto por analogia, talvez, com a criação de línguas nacionais, se tem caído nestes últimos tempos de tão exagerado nacionalismo, na louca pretensão de criar Igrejas nacionais. Banir o latim – receia o M. R. P. Ledóchowsld – é arriscar não só a pureza da fé, mas também a «unidade da Igreja».

 A estas razões tão autorizadas, queremos adicionar ainda outra, que chamaríamos de «decoro eclesiástico».

 A partir, sobretudo, do Congresso de Avinhão, celebrado em Setembro de 1956, acentua-se cada vez mais, entre os próprios leigos, o movimento a favor do latim, não só como língua viva, mas até como língua internacional.

 Ainda recentemente os homens cultos do nosso país puderam vibrar de júbilo perante o desassombro com que o Doutor Américo da Costa Ramalho, em bem documentado discurso, provou perante os seus ilustres colegas da Assembleia Nacional, que o latim nem era língua morta, nem inútil, e que, ainda mesmo esquecido, fazia perdurar a sua benéfica influência no espírito e na acção daqueles que um dia o cultivaram.

 Todas as tentativas para impor universalmente uma língua artificial, têm fracassado. Inventou-se o Volapük, composto em 1870 pelo célebre poliglota Scheyrer; difundiu-se o Esperanto, da autoria do Dr. Zamenhof, médico ele Varsóvia, que o deu a conhecer em 1887 com outro nome; propuseram-se Interlíngua e o latim sem flexões. Nenhum destes idiomas, porém, obteve um acordo unânime e, muito menos, os resultados práticos que alguns lhe auguravam.

Só o latim oferece solução viável e oportuna.

 Seria lamentável que os homens da Igreja, propugnadora invincta da latinidade, cedessem posições na defesa e no cultivo da língua latina!

 O M. R. P. Ledóchowski, no depoimento atrás citado, era de parecer, que devia manter-se e exigir-se com firmeza a prescrição do uso do latim nas aulas de Filosofia e Teologia, de tal maneira que não pudessem ser admitidos aos estudos filosóficos os seminaristas que não fossem capazes de compreender o latim dos professores e dos compêndios e, ao menos, passado algum tempo, de exprimir o seu pensamento em latim nas repetições e disputas. Opinava, ainda, que deviam ser depostos do seu ofício os Professores que não quisessem conformar-se com as prescrições da Santa Sé. Finalmente, sugeria que se enviasse um Visitador aos diversos seminários, para se ocupar apenas deste assunto.

 Pela nossa parte, acharíamos também útil a abertura de cursos intensivos de latim prático, nas férias do verão, para futuros e actuais Professores de latim nos seminários. Podiam aí tratar-se, em latim, questões gerais e especializadas de Gramática Latina, desenvolver-se um tratado de história da literatura latina em latim, e proferir-se-iam algumas conferências sobre cultura latina, algumas delas acompanhadas de projecções.

 Todos os apologistas do latim, como língua viva, estão de acordo em que só os antigos e tradicionais métodos de traduzir, escrever e falar habilitam para o completo domínio do idioma do Lácio.

 E não é preciso que se aspire a escrever e falar somente o latim de Cícero e de César, sobretudo quanto ao vocabulário. Não é preciso, nem é possível. Embora a Igreja tenha favorecido sempre, por todos os meios, o latim clássico, admite igualmente e emprega o latim cristão dos SS. Padres, bem como o latim progressivo e moderno, que os homens doutos têm enriquecido, através dos séculos, ante novas necessidades e novos conceitos do pensamento humano.

 Mas note-se que latim cristão não é sinónimo de latim bárbaro nem vulgar, nem decadente. Embora, por vezes, se possam depreender vestígios de decadência e vulgaridade nalguns escritos eclesiásticos, a verdade é que a generalidade dos latinistas cristãos, como Tertuliano, Minúcio Félix, S. Jerónimo, S. Agostinho, S. Leão Magno, Erasmo, Marsílio Ficino, Jerónimo Osório e José Caeiro, para citar apenas alguns nomes mais proeminentes na literatura latina cristã do passado, cultivaram com primor as elegâncias do latim clássico, e algumas das suas páginas podem, sem discrepância, figurar ao lado das melhores de Cícero e de César.

 Advogamos decididamente a evolução do latim na técnica vocabular, na aquisição de novas palavras e novas expressões, quando a necessidade ou a conveniência o requererem e a autoridade dos mestres o legitimar.

 Mas parece-nos indispensável, por motivos de coerência, uniformidade e clareza, a fidelidade aos preceitos gramaticais do latim clássico.

 Reprovamos, portanto, solecismos e barbarismos como estes, próprios do latim decadente ou arcaico: videtur quod philosophi vacant, por: videntur vacare philosophi; dixit quid volebat, por: quid vellet; nescit homo si est dignus amoré, por: an sit dignus; adeo aegrotus est, ut iam non vult cibos, por: ut nolit; faveas venire, por: veni, quaeso; etc., etc.

 Também seria para desejar a uniformidade de pronúncia, sobretudo agora que tanto se debate o problema do latim como língua universal. Não poderá sê-lo, de modo satisfatório, enquanto se mantiverem as três pronúncias actualmente vigentes: a romana, a tradicional e a restaurada. Esta última, que pode dizer-se suficientemente conhecida e mais científica, vai conquistando, cada dia, mais adeptos não só nas universidades laicas, onde principalmente tem dominado, mas até entre eclesiásticos, sobretudo na Alemanha. No Congresso de Avinhão, em Setembro de 1956, foi proposta como pronúncia única.

 Como única a propugna calorosamente César Vicário, S. M., em carta aberta ao Director de «Incunable», magnífico periódico sacerdotal espanhol, que à causa do latim tem consagrado este ano oportunos artigos.

 Pelo contrário, o P. Manuel – M. Ibáiíez, em carta publicada no mesmo periódico em Março deste ano, sustenta que a pronúncia universal «no puede ser otra que la romana».

 Refuta-o César Vicário, estribando-se na autoridade do P. José Jiménez Delgado, o qual nos Cursos de Humanidades Clássicas, celebrados na Universidade Pontifícia de Salamanca, de 5 a 25 de Agosto de 1957, «demonstrou que nem da célebre carta ao Cardeal Dubois, nem da não menos conhecida aos monges de Monserrat, nem do Sínodo de Tarragona, em que se ventilou este assunto, se deriva obrigação alguma de aceitar a pronúncia romana como pronúncia universal (…). O texto citado pelo P. Ibáiíez expressa realmente um desejo do Papa, mas unicamente a respeito do culto: in liturgico cultu peragendo. E é muito possível – acrescenta César Vicario – que nem Bento XV, nem Pio XI, se expressariam hoje nesses termos».

 Quanto a nós, reconhecendo embora as dificuldades práticas da adopção da pronúncia «restaurada» do latim, não hesitaríamos, contudo, em patrocinar a sua universalização dentro e fora da Igreja, apondo-Ihe a condição que já no Congresso de Avinhão propôs M.lle E. Malcovati: «que uma comissão internacional de latinistas de todos os países, designados pelas Associações Clássicas, elaborasse as Regras desta pronúncia, naturalmente adaptada a cada país»; e que se respeitasse «a pronúncia diferenciada – tradicional – do «u» vogal e do «u» consoante antes de vogal (v)», por causa da dureza e cacofonia, a que dá frequentemente azo em palavras e expressões, como estas: uiua, uoce, inuia, Naeuius, etc.

 A regra de todas as vogais abertas, vigente na pronúncia romana, apresenta uma vantagem prática que deveria ter-se em conta na adaptação da pronúncia restaurada, onde a prolação das vogais com som fechado ou aberto, consoante a sua quantidade longa ou breve, tornaria bastante complicada a fonética e exigiria um dispêndio de energias e de tempo, talvez não compensativo.

 Em todo o caso, com a pronúncia romana, ou com a tradicional, ou com a restaurada, defenda-se e cultive-se, entre os eclesiásticos, o latim como sempre foi tido: língua viva na Igreja.

 

Extraído de “Estudos de Cultura Greco-Latina”, de António Freire, S.J., Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1960.

 

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