Contestação e valores*

 

Augusto del Noce

[Tradução: Gederson Falcometa]

A presente crise de confiança em valores permanentes reclama a memória aquela que se verifica nos primeiros anos do século XVII. Naquele tempo se tratava também do período sucessivo as guerras religiosas e as descobertas de civilizações diversas das mediterrâneas; e ainda naquele tempo foi colocada em discussão, junto com o absolutismo dos valores, a tradição comum do pensamento grego e do pensamento cristão.

Naquele tempo, porém, a afirmação da relatividade histórica dos valores aparecia como um desafio ao senso comum. No entanto, hoje a idéia de que aqueles valores que eram cridos tradicionalmente como permanentes são sempre condicionados por situações determinadas e fazem a sua aparição como corolários de situações sociais definidas, permearam completamente a sensibilidade comum. Além disso, o pensamento daqueles que naquele tempo se diziam os deniaisés, aqueles que tinham perdido a ingenuidade com a dependência da amplificação da experiência, se referiam ao pensamento antigo nas linhas que apareciam incompatíveis com o cristianismo. Todavia, hoje, o sentimento comum é de viver em uma época nova, separada do passado pela crítica das duas guerras mundiais. A idéia que tudo se repete é substituída pela aceleração máxima do tempo; a adequação a um hoje que não é mais tanto o cumprimento do ontem quanto a sua negação. Continuar lendo →

La Civiltà Cattolica: O modernismo crítico – 1908 (I)

 



La Civiltà Cattolica 
Roma 1908.
[Tradução: Gederson Falcometa]


A crítica está na boca de todos: é o mérito da idade moderna. E se fosse mérito sincero, haveria razão para aprecia-la: a crítica verdadeira é o exame glorioso da verdade, seja científica ou religiosa. Mas muitas vezes é mérito falso: e a crítica falsa, ou melhor, o vão nome de crítica, é então pálio de todos os erros, escudo e salvo-conduto de todas as insipiências das mentes transviadas.

Isto se verifica com a mais triste evidência no modernismo. Esse da crítica não só trama o orgulho, mas se arroga por pouco o seu monopólio; falsamente, como em todo o restante, como no vangloriar que se dá de filosófico, de teológico, de místico ou de apologético, segundo demonstramos nos precedentes artigos [1]. Para que da crítica em qualquer significado que se entenda, em qualquer parte do conhecível que se considere, o modernismo não tem outra coisa que ilusão e impostura.  E isto precisamente se quer aqui provar sucintamente, para dar, em poucos tratos ao menos, a síntese conjunta e a crítica do modernismo crítico.

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Da Liberdade de pensamento, de palavra e de imprensa na sociedade moderna (I)

A liberdade de imprensa, caricatura de Johann Michel Voltz, 1819.

A liberdade de imprensa, caricatura de Johann Michel Voltz, 1819.


 

Padre Bonfiglio Mura, O.S.M.
[Tradução: Gederson Falcometa]

  1. Gênese e nexo desta liberdade

A liberdade que é a absoluta independência da razão humana em fato de religião proclamada por Lutero, gerando logicamente a liberdade e a independência da própria razão proclamada por Rousseau em fato de política, devia também gerar por rigorosa consequência a liberdade, e a independência do pensamento e por isso de palavra que lhe é a expressão. Ninguém em efeito pode estimar-se plenamente livre e independente em fato de religião como de política onde lhe venha subjugado o pensamento, ou a palavra que o exprime, obrigando a um e a outro a depender de uma autoridade qualquer diversa daquela da própria razão e do arbítrio. A sociedade moderna então, querendo e proclamando com Lutero e com Rousseau a independência religiosa e política do homem, devia também querer e proclamar a independência de pensamento e de palavra, e por consequência lógica àquela de imprensa que também essa é a expressão do pensamento, e antes mais durável porque palavra escrita, e mais perniciosa ou salutar nos seus efeitos, porque a palavra articulada pode sentir-se por poucos, e a escrita pode ser lida por muitos, ou mesmo todos. Continuar lendo →

[TOLKENIANA] Éowyn: uma mulher como Deus ordena

 

Isacco Tacconi
Radio Spada
[Tradução: Gederson Falcometa]

Devo confessar a minha objetiva dificuldade em escrever sobre a mulher em geral e, no presente caso, das figuras femininas tolkienianas por uma dupla razão: 1) a criatura «mulher» é a meu ver um verdadeiro e próprio mistério ainda não plenamente compreendido, o qual papel teológico na história do mundo e da Igreja é tão complexo quanto crucial; 2) Os personagens tolkienianos acrescentam a essa complexidade que definirei «ginecológica», dos extratos e das nuanças numerosas ao menos quanto refinadas. Por isso «o dever do necessário se torna árduo quase ao helênico tropo, e para não lançar fora as sementes conservando sãos espírito e mente, vou buscando luzes e graças Daquele que apenas a recebe e dá em cópia a raça humana». Não por acaso os poetas de todos os tempos requereram o socorro de uma «Musa» (a partir da qual a «música»), especialmente para cantar as virtudes e as graças de uma criatura como a mulher que, se intenta e se recolhe na piedade e a caridade, pode tornar sinal predileto de coisas celestes.

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CRITÉRIOS PARA RECONHECER AS VERDADES DOGMÁTICAS

 

Sim Sim Nao Nao - Concílio Vaticano I

Padre Sisto Cartechini, S.J.
Roma, 15 de agosto de 1953
[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Exposto que coisa seja o dogma, é fácil conhecer os critérios para estabelecer quais sejam as singulares verdades dogmáticas.

 

1 – O magistério solene dos Concílios

Antes de expor este critério, que é a via mais comum para determinar a verdade de fé católica, é preciso fazer algumas observações importantes.

Para que as decisões de um Concílio tenham valor dogmático, o Concílio deve ser ecumênico e legítimo, apenas em tal caso ele goza do carisma da infalibilidade. De fato, Jesus Cristo prometeu a infalibilidade a Igreja universal e não as singulares igrejas particulares. Os Concílios particulares não são infalíveis: porém as suas decisões podem adquirir um valor universal e definitivo, se em seguida intervém a aprovação do romano pontífice. Assim, ocorreu com o Concílio Contantinopolitano Iº  (em 381: D. 85), para o Cartaginês contra os pelagianos (em 418: D. 101 ss.), o Arausicano contra os semipelagianos (em Orange 529: D. 174 ss.). A autoridade, portanto, destes Concílios, se bem que em origem particulares, de fato é como aquela dos Concílios ecumênicos.

Além disso: no desenvolvimento das discussões em um concílio podem acontecer muitos fatos de natureza puramente humana e ter lugar também as paixões, como se verificou em várias discussões no Concílio de Trento; mas as últimas conclusões, que dizem respeito a fé e aos costumes, são infalíveis.

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A relação entre o natural e o sobrenatural em Jacques Maritain

sim sim nao nao - As duas cidades
 

Extraído do livro:
Getsemani
Reflexões sobre o Movimento
Teológico Contemporâneo
Cardeal Giuseppe Siri
[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Um filósofo que no mesmo período, isto é, desde os anos 30, influenciou muito a formação das tendências contemporâneas, seja filosófica ou teologicamente, foi Jacques Maritain [1]. Em todo o seu pensamento, não só buscou assimilar a ordem natural na sobrenatural, mas ao contrário, lhes separou de tal modo que reconhece na criação e na história humana duas vocações distintas, ligadas certamente por um princípio de subordinação, mas essencialmente autônomas, com fins e meios próprios: a vocação e a missão terrestre, e a vocação sobrenatural.

Se alguém quisesse tomar consciência e colher imediatamente – se pode dizer – a característica do pensamento de Maritains acerca da autonomia das duas vocações distintas, bastaria que lesse a última frase do seu livro «Humanisme Intégral», publicado em 1936, e que constituí a referência fundamental de algumas tendências teológicas e também da ação temporal e política em muitos ambientes cristãos:

«Os mundos que surgiram no heroísmo, se põe na fadiga, afim de que venha por sua vez novos heroísmos e novos sofrimentos que farão surgir outros mundos. A história humana cresce assim, porque não se tem nisto um processo de repetição, mas de expansão e de progresso; cresce, como uma esfera de expansão, aproximando-se junto a sua dupla consumação: no absoluto aqui embaixo, onde o homem é deus sem Deus, e no absoluto do alto, onde é deus em Deus» [2]. Continuar lendo →

A autoridade e o autoritarismo

 

 

 

Sim Sim Nao Nao - Jesus e os fariseus

Jesus entre os escribas e os fariseus. Tela de Achille Mazzotti, 1844.

Gustave Thibon

29 de março de 1974

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Se dizemos de um homem que ele « tem autoridade », este juízo é um elogio. Mas se dizemos: ele « é autoritário » exprimimos uma crítica.

Onde está a diferença entre autoridade e autoritarismo?

 

A autoridade de um homem se mede pela sua capacidade de mandar, isto é, pela confiança que inspira ao seu próximo e que o inclina a obedecer sem discutir. No célebre drama « Rei Lear », Shakespeare nos mostra o velho rei deposto que vaga pela floresta. Um cavalheiro passando por lá, o encontra e lhe diz: «Não lhe conheço, mas sinto alguma coisa em você que me induz a lhe obedecer. – E que coisa seria essa? Pergunta o rei. – A autoridade».

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A terceira narina

 

Sim Sim Nao Nao - A terceira narina

Giovannino Guareschi
[Tradução: Gederson Falcometa]

Não: caro leitor, o Seu ressentimento é sem razão. O próprio fato de que o senhor, embora sendo comunista militante leia também os jornais que não são do Seu partido, o próprio fato de que o senhor embora considerando-se ofendido, me escreva assinando com nome, sobrenome e endereço, mas não somente isso, não me chame fascista, reacionário e traidor do povo, estão a demonstrar que o senhor não pode em nenhum modo ser compreendido na categoria dos homens com três narinas.

Esse negócio da terceira narina é – o reconhecemos – um achado gráfico notabilíssimo enquanto permite definir um tipo e uma mentalidade com o simples auxílio de um buraco, um pequeno buraco o qual, praticamente, se resolve em um circulozinho de rapidíssima atuação.

Polemicamente é um motivo válido e por isso eu lhe uso sem parcimônia de maneira que muitos já tem aceitado a terceira narina como um dado de fato, mas hoje precisamente por isto sinto o dever de fazer uma precisão.

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O Venerável Bartholomäus Holzhauser (1613-1658) ou a restauração da Realeza social de N.S. Jesus Cristo

 

Bartolomeu Holszhauser (esquerda), Johann Philipp von Schönborn (centro) e Rei Charles II da Inglaterra (direita). Pintura contemporânea.

 

Nicola Dino Cavadini

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

O Venerável Bartholomäus Holzhauser nasce de família pobre em Longnau, nas proximidades de Augusta, na Baviera, em 24 de agosto de 1613. Abraça a carreira eclesiástica durante o trágico período da guerra dos Trinta anos (1618-1648) decide fundar, para socorrer as gravíssimas condições espirituais do seu país, uma congregação de clérigos seculares formando vida comum, conhecidos como Bartolomitas. Inocêncio XI lhe aprovou a regra em 1680. O fundador morre em odor de santidade paróco de Bingen, na diocese de Mongúcia, em 20 de maio de 1658, onde repousa na Igreja da Santa Cruz.

 

Hozhauser todavia é ainda mais notável por uma “obra publicada pela primeira vez em Bamberga em 1784: Interpretatio in Apocalypsin, por alguns considerada o melhor produto daquela corrente exegética que vê no Apocalipse de S. João a narração simbólica da história da Igreja”. Holzhauser, singularmente dotado do dom da profecia, deu mão ao comentário depois de 1649 enquanto se encontrava no Tirol, “em continua oração por dias inteiros, privado de comida e bebida” e “separado de todo consórcio humano”.

O autor se insere então no interior de uma linha hermenêutica assaz antiga, com o claro entendimento de indicar aos contemporâneos como a restauração católica, falida depois da má conclusão da guerra dos Trinta anos, foi adiada no tempo. Deus, que precisamente falou a respeito dos acontecimentos de sua Esposa mística, a Igreja, no Apocalipse, determinou realmente uma época da história em que a Monarquia de Cristo dominará sobre toda a terra, sobre todos os seus inimigos internos e externos.

A paz de Westfalia de 1648, de fato, julgada por Holzhauser “danosíssima contra a Cristandade e a Igreja Católica”, não só reconfirmou e legitimou a divisão da Alemanha entre regiões luteranas e católicas, mas piorando a condição precedente, reconhece além disso, oficialmente também o calvinismo, que do conflito foi a causa desencadeadora. A heresia em suma conseguiu sair vitoriosa e se tinha estabelecido firmemente no coração do império, apesar dos esforços dos Imperadores Habsburgos, sobretudo de Ferdinando II (1619-1637) muitas vezes elogiado pelo autor, de recuperar para a Igreja a inteira Alemanha.

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[TOLKIENIANA] Boromir, o Pecador resgatado

 

 

Di Isacco Tacconi

Radio Spada

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Gostaria de dedicar esta nova tratativa sobre personagens tolkienianos a uma figura a mim particularmente cara: Boromir de Gondor.

A “simpatia”, no sentido etimológico do termo de “com paixão” (do grego «syn – patìa»= sentir comum), que este personagem sempre me suscitou deriva da sua radical e dramática humanidade. Entre todos os personagens da Companhia que se oferecem para acompanhar Frodo nas suas missões “redentoras”, Boromir é, a meu ver, o mais “humano”. Não por acaso é o único verdadeiro representante do mundo dos homens. Não o mesmo para Aragorn que está, em certo sentido, acima do homem, é mais que um homem. Mas deixemos o discurso sobre o Herdeiro de Isildur para uma próxima tratação, melhor nos dedicarmos ao “homem” Boromir.

Filho do regente de Gondor, Boromir tem um destino assinalado pela frustração e pela desilusão: ele realmente não é herdeiro do trono de Gondor porque o pai não é o Rei. Aquilo a que Boromir ao máximo pode ambicionar é também tornar-se regente de Gondor, mas jamais o Rei e sabe bem que esta honra não cabe a ele. Boromir se encontra a dever combater, sofrer e defender um reino e um trono que não lhe pertencem, é o simples filho do protetor do trono. Portanto, triste o seu fato marcado pela fadiga e pela dor ou ao mesmo tempo belíssimo e honroso o papel de combatente e de guia que deve desenvolver.

Ele é o “servo bom e fiel” da parábola evangélica que deve vigiar e proteger a casa dos inimigos, continuar a servir o patrão mesmo se o patrão da casa está ausente atendendo-o com paciência e perseverança. Boromir é um outro maravilhoso paradigma tolkeniano do “homem” e melhor ainda do cristão, que não tem a sua glória neste mundo, ou seja, não pode sentar-se já aqui sobre o Trono real mas o deve servir e defender fielmente em espera do “Retorno do Grande Rei”, apenas então, se houver perseverado até o fim, poderá ouvir-se dizer do Rei: «euge serve bone et fidelis quia super pauca fuisti fidelis supra multa te constituam intra in gaudium domini tui» (Mt 25,23). Continuar lendo →

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